Voltar

Dimensionamento do agronegócio do café no Brasil

(Texto extraído do periódico Cadernos de Ciência & Tecnologia - CC&T, v. 38, n. 2 (2021)).

(Acesso o artigo completo aqui).

Segundo o conceito de Davis & Goldberg (1957), o agronegócio é o conjunto de todas as operações envolvidas na produção e distribuição de alimentos e fibras e pode ser dividido em quatro agregados: insumos agrícolas, produção agropecuária, processamento e distribuição. O agronegócio pode ser analisado como um processo de criação de valor, o qual adiciona processamento e serviços aos produtos agropecuários até chegar ao consumidor final. A composição da renda (produto interno bruto) dos agregados tem implicações econômicas para a sociedade. A maior participação do setor agropecuário na renda total do agronegócio reflete benefícios para a produção de alimentos e fibras, assim como a maior participação do setor agroindustrial indica o maior processamento dos produtos agropecuários (Amanor, 2009). A estrutura de valor dos agregados está relacionada ao desenvolvimento da economia que conduz a um processo de maior nível tecnológico na produção, processamento e distribuição de alimentos e fibras, com novos participantes, maior processamento, serviços adicionados e novos produtos (Pingali, 2007).

O objetivo do presente estudo foi dimensionar o agronegócio do café e seus impactos econômicos sobre a economia brasileira com dados da matriz insumo-produto do ano de 2017.

O agronegócio do café compreende os insumos, produção agrícola, agroindústria e serviços, em uma longa cadeia que apresenta importância econômica e social com geração de empregos, renda e divisas com exportações. A mensuração dessa cadeia produtiva e impactos econômicos torna possível identificar gargalos, indicar políticas para seu desenvolvimento e contribuir para a melhor compreensão de seu funcionamento. Os produtos analisados no presente estudo são: o café em grão, que é o café seco e sem casca que tem origem nas propriedades agrícolas; e o café beneficiado, um conjunto de produtos que abrange o café torrado, moído, solúvel e outros produtos industriais do setor “Outros produtos alimentares” presente nas Contas Nacionais do Brasil. A seguir são analisados os estudos sobre dimensionamento do agronegócio, a mensuração de indicadores econômicos e o impacto das exportações do agronegócio do café.

Estudos recentes sobre dimensionamento do agronegócio e impactos econômicos da cadeia produtiva do café

O agronegócio brasileiro é responsável por aproximadamente um quarto da renda nacional e um terço dos empregos. Além disso, 10% do PIB nacional pertence às cadeias produtivas da agricultura familiar, e o valor representa aproximadamente um terço do total das cadeias produtivas agropecuárias. O agregado de serviços tem a maior participação na geração de valor, com cerca de 50% do total do agronegócio. Porém, existe alto potencial para o desenvolvimento da agroindústria.

As unidades da federação com maior importância no agronegócio são: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Rondônia, com no mínimo 40% do PIB estadual, 50% dos empregos e 41% dos impostos indiretos líquidos. No ano de 2008, a produtividade do trabalho no agronegócio dos estados do Norte e Nordeste era aproximadamente metade daquela do Sudeste e Sul do Brasil, e seus valores que indicam potencial para investimentos em tecnologia, capital e qualificação profissional.

As pesquisas sobre o dimensionamento do agronegócio para países mostram que o desenvolvimento econômico leva à diminuição de sua participação no PIB e ao aumento da participação
da indústria e serviços na geração de valor (PIB do agronegócio). Considerando-se os modelos de insumo-produto mundiais, o agronegócio participava com 15% do total da renda mundial e gerava 926 milhões de empregos nos quarenta países (45% do total) da base de dados do World Input-Output Database, no ano de 1999 (Sesso Filho et al., 2019a).

Fontes dos dados

A matriz insumo-produto do Brasil, para o ano de 2017, foi estimada a partir dos dados preliminares das Contas Nacionais e apresenta 68 setores ou atividades econômicas e 128 produtos. A matriz está disponibilizada por Nereus (2020), e as referências para a construção foram Guilhoto & Sesso Filho (2005, 2010).

Dimensionamento do agronegócio do café

A estimativa do PIB do agronegócio do café foi baseada na metodologia descrita no trabalho de Furtuoso et al. (1998), em que a cadeia produtiva da agropecuária é analisada para trás e para frente. A metodologia foi aplicada aos dados do Brasil, do ano de 2017, com a matriz insumo-produto, com enfoque produto por produto e tecnologia baseada na indústria. 

O agronegócio do café é composto pelos agregados: I) insumos; II) produção agrícola de café em grão; III) indústria de café (café beneficiado); e IV) distribuição. O método de mensuração do produto interno bruto (PIB) do agronegócio do café leva em consideração que o primeiro agregado são os insumos para a produção de café em grão. O agregado II é a produção de café em grão. O agregado III (indústria do café) produz o “café beneficiado”, que compreende a torrefação, moagem, produção de café solúvel e outros subprodutos. O agregado IV se refere a atividades de comércio e serviços.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os principais insumos da produção de café em grão são combustíveis, adubos e fertilizantes, transporte, defensivos agrícolas, intermediação financeira e comércio. Esses insumos (apesar de existirem outros) compõem mais de 70% das aquisições para alimentar a produção agrícola.

No agronegócio do café, os principais produtos são o café em grão e o café beneficiado. O café em grão possui três destinos principais: cerca de 66% seguem para exportação; 30% para insumo no setor “Outros produtos alimentares”, para a produção de café torrado e moído e café solúvel; e ainda pode ser utilizado como matéria-prima em outras indústrias (4%). O café beneficiado (torrado, moído e solúvel) tem como destino principal o consumo das famílias (cerca de 74%), mas deve-se destacar a importância crescente do setor alimentação (12%) como elo da cadeia que liga a indústria ao consumidor. Cerca de 14% do café beneficiado são utilizados como matéria-prima de outras indústrias.

Pode-se visualizar um processo de criação de valor ao produto agrícola inicial, café em grão, que por meio do processamento, transporte, adição de serviços (propaganda, embalagem, análises técnicas) e comercialização aumentam o valor unitário dos subprodutos até chegar ao consumidor final que pode estar dentro do país ou no exterior.

Os resultados mostram que o processo de geração de valor dos subprodutos do café ocorre principalmente no último agregado, o que indica a importância dos setores de comércio e serviços na cadeia produtiva. Além disso, o processo industrial suporta a maior parte dos impostos líquidos em valor percentual da renda, o que pode ser um indicativo de que benefícios poderiam ser gerados, a partir da diminuição de impostos, pelo aumento do consumo em razão da queda de preços e geração de empregos.

Tabela 1. Dimensionamento do agronegócio do café no Brasil em geração de renda (PIB), impostos líquidos e participação no PIB (%), 2017.

Fonte: Elaborada pelos autores a partir dos dados da pesquisa (2020).

Segundo Yan et al. (2011), o desenvolvimento econômico leva à maior participação dos agregados indústria e serviços no PIB do agronegócio. As conclusões do autor são válidas para o caso do agronegócio do café no Brasil − que pode ser considerado desenvolvido e capaz de atender a uma demanda exigente, cuja característica é a de que a maior parte da geração de renda (PIB) ocorre nos agregados indústria e principalmente nos serviços. Considerando-se que os estudos referentes ao dimensionamento do agronegócio do Brasil e seus estados, analisados na revisão de literatura (Sesso Filho et al., 2019b), indicam participação da indústria entre 25% a 40% do PIB total do agronegócio, pode-se inferir que a indústria do café tem potencial para aumentar sua participação na geração de renda da cadeia produtiva (10%, em 2017) com o desenvolvimento econômico do país.

Os indicadores econômicos para café em grão e café beneficiado foram baseados na matriz de insumo-produto, com enfoque produto x produto, denominados geradores de produção, renda (PIB), emprego, remuneração e impostos líquidos.

Os valores foram obtidos a partir da variação da demanda final de um milhão de reais da demanda final de cada produto − café em grão (produção agrícola) e café beneficiado (produtos industriais). O aumento da demanda final de café em grão geraria um milhão de reais em produção agrícola e outros  671 mil reais em seu sistema produtivo, no ano de 2017. Para o café beneficiado, a mesma variação da demanda final resulta em um milhão de reais de café beneficiado e 1,227 milhão de reais no restante de sua cadeia produtiva. O maior efeito gerador de produção do produto industrializado ocorre em razão da existência de um sistema produtivo mais longo. 

CONCLUSÕES

Os principais produtos analisados no presente estudo foram o café em grão (seco e sem casca), proveniente da atividade agrícola, e o café beneficiado, que abrange café torrado, moído, solúvel e outros bens industrializados do setor “Outros produtos alimentares”. Os principais resultados obtidos mostraram que o agronegócio do café gerava 30,7 bilhões de reais de renda e 695 mil empregos diretos e indiretos, com média salarial de 18 mil reais ao ano. O agregado com maior participação na geração de valor é o serviço (47% do PIB Café), e a produção agrícola (café em grão) é responsável por 50% dos empregos. Os valores mostram a importância dessa cadeia produtiva para a economia brasileira. Além disso, o setor “Serviços de alimentação” é um importante elo interno para agregação de valor entre a produção de café beneficiado e o consumidor final.

A capacidade de geração de renda por um milhão de reais de aumento da demanda final dos principais produtos − café em grão e café beneficiado − é de aproximadamente 800 mil reais. A maior parte desse impacto ocorre no campo, para o café em grão; e a maior parte do efeito é indireto (cadeia produtiva), para o caso do café beneficiado. A mesma variação da demanda final dos produtos gerava 22,2 empregos para o café em grão, e 16,6 empregos, para o café beneficiado. Mas, a geração de remuneração e impostos é maior para o café beneficiado.

As exportações de café em grão somaram 13,6 bilhões de reais, no ano de 2017 e geraram 303 mil empregos diretos e indiretos, 11 bilhões de reais de renda (PIB) e 729 milhões de reais em impostos líquidos. As exportações de café beneficiado somaram 1,5 bilhão de reais, com a geração de 25 mil empregos, 1,2 bilhão de reais de renda e 159 milhões de reais em impostos. Esses resultados mostram que a industrialização poderia aumentar os impactos econômicos da cadeia, pois a geração de remuneração e impostos do café beneficiado é maior do que aquela do café em grão.

 

Autores: Patrícia Pompermayer Sesso, Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas, técnica bolsista do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, pós-doutorado pelo Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina; Umberto Antonio Sesso Filho, Doutor em Economia Aplicada, docente do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina; e Luiz Filipe Protasio Pereira, Doutor em Genética de Plantas, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária/Embrapa Café, Londrina/PR.

Fonte: Cadernos de Ciência & Tecnologia

Aviso: Os conteúdos publicados nesta página são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente o ponto de vista do Banco do Nordeste. O Banco do Nordeste não se responsabiliza por quaisquer atos/decisões tomadas com base nas informações disponibilizadas por suas publicações. Desse modo, todas as consequências ou responsabilidades pelo uso de quaisquer dados ou análises destas publicações são assumidas exclusivamente pelo usuário, eximindo o Banco do Nordeste e o(s) autor(es) de todas as ações decorrentes do uso deste material. O acesso a essas informações implica a total aceitação deste termo de responsabilidade.