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Potencial da produção de própolis no Nordeste

(Texto extraído do Caderno Setorial ETENE nº 153 - Janeiro de 2021. Acesse o artigo completo aqui)

A própolis é um produto natural oriundo de substâncias resinosas, gomosas e balsâmicas, colhidas pelas abelhas de brotos, de flores e de exsudados de plantas, nas quais são acrescentadas secreções salivares, cera e pólen. Uma das propriedades mais conhecidas e amplamente testadas da própolis no mundo é sua atividade antibacteriana; muitos estudos foram realizados com uma grande variedade de bactérias, fungos, vírus e outros microorganismos.

Park, et al., (2002) classificaram a própolis brasileira em 12 grupos com base nas características físico químicas, sendo cinco no Sul, um no Sudeste e seis no Nordeste, (dois na Bahia, dois em Pernambuco, um no Ceará e um no Piauí), portanto, o Nordeste e o Sul possuem maior diversidade de própolis em relação ao Sudeste e Centro-Oeste. Posteriormente, foi adicionado mais um grupo no Nordeste, a própolis vermelha. 

PRODUÇÃO

A própolis produzida comercialmente no Brasil é basicamente de Apis mellifera; as abelhas nativas também produzem própolis (geoprópolis), porém ainda é difícil agregar valor econômico à mesma porque os estudos relacionados à identificação das suas atividades biológicas e propriedades físico-químicas ainda são poucos e seu potencial farmacológico ainda não foi suficientemente difundido.

Ainda não existem bancos de dados oficiais sobre a produção de própolis no Brasil. Sabe-se que Minas Gerais é o maior produtor nacional, sendo responsável por grande parte das exportações de própolis verde do País, que é proveniente do alecrim do campo (Baccharis dracunculifolia). A produção média anual de própolis por colmeia varia com o clima, com os recursos naturais disponíveis e de acordo com a genética das abelhas. O apicultor deve selecionar as colônias com maior aptidão para produção de própolis. De acordo com Fernandes Neto (2018), a produção de própolis no semiárido por colmeias pode variar de 600 a 800 g por colmeia ano.

A própolis verde de Minas Gerais é a mais estudada e aceita no mercado internacional, sendo considerada um antibiótico natural; possui também atividade antioxidante, anti-inflamatória, imunomodulatória, cicatrizante, anestésica, anticâncer e anticariogênica (dificulta a formação de cárie).

No Nordeste, são escassas as informações sobre o potencial produtivo da própolis em diferentes biomas, sobre os métodos mais adequados de produção e sobre as propriedades físico-químicas e ação biológica. Na Região, destaca-se a produção de própolis vermelha, encontrada nos manguezais de diversos estados, com destaque para Alagoas. Porém, existe produção de própolis vermelha também no sul da Bahia. A resina coletada pelas abelhas para a fabricação da própolis vermelha é proveniente de uma planta conhecida popularmente como rabo de bugio (Dalbergia ecastophyllum (L) Taub). Essa própolis possui grande procura no mercado mundial por suas atividades antitumorais. Recentemente, tem ganhado atenção do setor a própolis produzida no Nordeste a partir de resina coletada da jurema-preta (Mimosa tenuiflora (Willd.) Poir), árvore presente no semiárido brasileiro. 

MERCADO

Os diversos tipos de própolis produzidos no Brasil possuem elevado valor no mercado mundial, pois possuem comprovada atividade biológica. O principal mercado para a própolis brasileira é o asiático, 92% de toda própolis in natura consumida do Japão é do Brasil. Também são consumidores da própolis brasileira os países europeus e os Estados Unidos.

De acordo com Lopes, et al., (2010), o preço da própolis depende da sua qualidade, origem botânica e mercado a que se destina. E certamente a ação biológica comprovada também interfere no preço do produto. Em 2020, a própolis no Brasil teve uma grande valorização em decorrência da demanda crescente para todos os tipos de própolis, o que pode ter tido relação com a crença de que os produtos à base de própolis podem ajudar no tratamento da Covid-19. Fischer, et al., (2010) comprovaram que as doenças respiratórias e otorrinolaringológicas podem ser tratadas com própolis como adjuvante em vacinas, pois é capaz de aumentar a resposta imune.

De acordo com a EMATER de Minas Gerais, a demanda mundial pela própolis brasileira tem crescido nos últimos anos, as exportações se expandiram para o Japão, China, Coréia, Estados Unidos e países europeus, pois a própolis brasileira é reconhecida mundialmente como de muito boa qualidade. Porém, o volume de exportação não pode ser determinado pela inexistência de um código NCM independente.

Em 2019, a produção mineira de própolis verde ganhou destaque perante o mercado internacional durante o Congresso da Apimondia realizado no Canadá, quando o audiovisual “Green Própolis: a Gift from Brazilian Nature to the World” (Própolis Verde: Um Presente da Natureza Brasileira para o Mundo) conquistou a medalha de bronze no concurso World Beekeeping Awards Apimondia 2019 na Categoria vídeo. Em 2020, com a pandemia da Covid-19, a procura por própolis disparou e o preço sofreu uma forte valorização.

Nesse contexto, surgiu uma demanda por própolis da jurema-preta produzida no semiárido. No entanto, esse tipo de própolis ainda não foi suficientemente estudado; sem o conhecimento das suas propriedades, não há como o mercado se consolidar. Assim, apesar do elevado potencial, o investimento pode ser arriscado, pois não há comprovação científica e a demanda pode desaparecer tão rápido quanto surgiu. É primordial incentivar a realização de estudos para determinar as propriedades e composição química da própolis produzida no semiárido brasileiro.

As empresas que comercializam própolis no Brasil estão concentradas do Sudeste e Sul. De acordo com o Ministério da Agricultura Pecuária e do Abastecimento (MAPA, 2020), no Nordeste existem apenas três empresas habilitadas a exportar própolis ou derivados de própolis. Porém, diante da demanda que surgiu em 2020, houve procura por própolis na Região por parte de entrepostos de Minas Gerais.

Quadro 1 – Empresas habilitadas a exportar própolis no Nordeste

A própolis vermelha dos manguezais de Alagoas e a própolis verde de Minas Gerais possuem Indicação de Origem, uma certificação do Instituto Nacional da Propriedade industrial (INPI), reconhecida internacionalmente e que dá direito à propriedade intelectual autônoma, indicando a origem de um determinado produto ou serviço.

POTENCIAL DE PRODUÇÃO NO NORDESTE

De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, existem no Nordeste 24.167 estabelecimentos com apicultura e quase 700 mil colmeias. Piauí, Bahia e Ceará são os estados com as maiores quantidades de estabelecimentos com apicultura na Região, porém todos os estados possuem potencial para produção de própolis, pois todos já desenvolvem atividades apícolas.

Comercialmente, os apicultores nordestinos produzem basicamente mel, devido principalmente à garantia de comercialização. No entanto, a produção de mel é concentrada na curta estação chuvosa do ano com um grande período de entressafra. Considerando que existe no Nordeste grande diversidade de espécies vegetais produtoras de resinas e ricas em valores terapêuticos (FERNANDES NETO, 2018), a produção de própolis pode ser de elevada importância na diversificação e aumento da renda dos apicultores.

Além da diversidade de própolis que a Apis mellifera pode produzir de acordo com as condições locais, também existe um grande potencial de produção de própolis das abelhas nativas (geoprópolis). Com um plano de capacitação adequado, muitos dos apicultores nordestinos poderiam se tornar também produtores de própolis. 

Autora: Maria de Fátima Vidal é Engenheira Agrônoma, Mestre em Economia Rural e Coordenadora de Estudos e Pesquisas do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), do Banco do Nordeste.

Fonte: Caderno Setorial ETENE